BAČKA TOPOLA — Irlanda e Israel se enfrentam neste domingo, 4, pela Nations League, em Bačka Topola, na Sérvia. O duelo ocorre poucos dias depois do primeiro encontro entre as equipes, marcado por protestos dos irlandeses e manifestações sobre a situação na Faixa de Gaza.
Desde 2023, o território é alvo de um conflito que já provocou a morte de mais de 74 mil palestinos, conforme dados do Ministério da Saúde local registrados pelo escritório humanitário da ONU.
O técnico da Irlanda, Heimir Hallgrimsson, afirmou durante a convocação para esta Data Fifa que jogaria “contra o genocídio”. Antes da partida, o goleiro Gavin Bazunu deixou a concentração e não participou do confronto, alegando motivos morais relacionados ao conflito.
No jogo, os atletas irlandeses permaneceram de cabeça baixa durante o hino de Israel, utilizaram faixas pretas nos braços, em sinal de luto pelas mortes em Gaza, e não participaram do cumprimento tradicional entre as equipes. A Irlanda venceu por 3 a 0.
A posição irlandesa em relação à Palestina, porém, antecede os confrontos atuais. Desde 1980, o país apoia a criação de um Estado palestino e foi o primeiro membro da então Comunidade Europeia a defender essa proposta. Em maio de 2024, a Irlanda reconheceu oficialmente a Palestina.
Para Rodrigo Augusto Duarte Amaral, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e doutor em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas, o reconhecimento foi resultado de uma orientação construída ao longo de décadas. “O reconhecimento da Palestina em maio de 2024 não é puramente uma reação ao genocídio”, afirmou.
Em 2022, a Irlanda esteve entre os países europeus que condenaram os planos israelenses de construção de mais de 4 mil unidades habitacionais na Cisjordânia. Na declaração conjunta, os países disseram que os assentamentos violavam o direito internacional e prejudicavam a criação de um Estado palestino.
A opinião pública irlandesa também demonstrou maior proximidade com a causa palestina. Um estudo de Miceal Canavan e Liam Kneafsey, publicado em 2026 na Revista Britânica de Política e Relações Internacionais, ouviu 1.547 pessoas na República da Irlanda, em dezembro de 2023. Entre elas, 53% declararam maior simpatia pelo lado palestino, 11% pelo lado israelense e 31% pelos dois lados. Uma parcela menor não soube ou não quis indicar preferência.
Memória histórica e impacto no futebol
Segundo Rodrigo, a experiência do domínio britânico e o processo de independência da Irlanda ajudam a explicar a aproximação de parte da sociedade com a causa palestina. A Palestina também esteve sob administração britânica: a presença do Reino Unido na região começou em 1917, o Mandato Britânico da Palestina foi formalizado pela Liga das Nações em 1922 e terminou em 1948.
Para o professor, a luta pela independência irlandesa, a divisão da ilha e o conflito na Irlanda do Norte colocaram colonialismo, ocupação, autodeterminação e soberania nacional no centro da memória política do país.
As relações diplomáticas também se deterioraram. Em dezembro de 2024, Israel anunciou o fechamento de sua embaixada em Dublin. A Irlanda lamentou a decisão, mas declarou que os dois países continuariam mantendo relações diplomáticas.
No futebol, Rodrigo avalia que partidas entre seleções funcionam como espaços de representação nacional e dão visibilidade a manifestações políticas. Para ele, o principal efeito do confronto está no campo simbólico: o jogo pode mobilizar a opinião pública e produzir imagens com circulação internacional, embora dificilmente altere, por si só, a política externa de um Estado.



