Os medicamentos para tratamento da obesidade ampliaram as opções disponíveis para os pacientes, mas não eliminaram o papel da cirurgia bariátrica. Para o cirurgião geral e bariátrico André Augusto Pinto, da Clínica Gastro ABC, as duas estratégias devem ser escolhidas conforme o perfil e as necessidades de cada pessoa.
Em parte dos casos, as chamadas canetas emagrecedoras conseguem levar o paciente à perda de peso esperada e podem evitar uma cirurgia que antes era considerada. A mudança já aparece nos consultórios e permite que alguns pacientes controlem a doença sem chegar ao procedimento.
O desafio depois da perda de peso
A resposta aos medicamentos, porém, não encerra necessariamente o tratamento. André afirma que o principal desafio é manter o peso alcançado por um período prolongado. Estudos citados pelo especialista apontam que pode haver reganho significativo já após seis meses da interrupção das canetas.
Por esse motivo, alguns pacientes podem precisar de doses de manutenção por períodos prolongados, possivelmente por toda a vida. A necessidade de continuidade faz com que emagrecer com o medicamento não signifique, necessariamente, que o tratamento tenha terminado.
A cirurgia também apresenta diferenças na resposta. Segundo André, a perda de peso pode chegar a aproximadamente 40% do peso inicial após cerca de um ano. Já o resultado das canetas varia conforme o paciente e a dose usada. Há ainda pessoas que não respondem adequadamente às medicações e não alcançam a perda esperada.
Benefícios além da balança
A bariátrica não atua apenas na redução do peso. O procedimento também é metabólico e, em pacientes com obesidade e doenças associadas, pode trazer benefícios importantes no controle de condições relacionadas à obesidade, como hipertensão arterial, diabetes e esteatose hepática.
Por isso, André considera que a cirurgia continua entre os tratamentos mais efetivos no longo prazo para pessoas com IMC acima de 35 e doenças associadas à obesidade, além de pacientes com IMC acima de 40. O uso de medicamentos continua possível nesses casos, mas uma nova alternativa não elimina automaticamente a indicação cirúrgica.
A popularização das canetas também fez com que pacientes já indicados para a bariátrica decidissem adiar o procedimento para tentar primeiro o tratamento medicamentoso. Para alguns, a tentativa funciona. Para outros, o peso esperado não é alcançado, as doenças associadas não são controladas adequadamente ou ocorre reganho, levando posteriormente ao início do processo cirúrgico.
André afirma que esse adiamento pode provocar atraso na perda de peso e no tratamento das condições associadas, que podem piorar durante o período.
Tratamentos podem ser combinados
A escolha entre medicamento e cirurgia deve ser individualizada, com avaliação de profissionais especializados. Para o cirurgião, as opções não são concorrentes: cada uma tem indicações próprias e pode ser acompanhada conforme a necessidade do paciente.
Em alguns casos, cirurgia e medicamentos podem ser usados em conjunto. A definição depende da indicação médica e da resposta de cada pessoa ao tratamento.
A cirurgia, portanto, não deve deixar de existir com a evolução das canetas. Ela mantém importância especialmente para pacientes com obesidade grave e para aqueles que apresentam doenças associadas de forma mais grave, por combinar perda de peso e efeitos metabólicos.
Os novos medicamentos ampliaram o arsenal contra uma doença crônica, mas não criaram uma solução única. A estratégia pode envolver uma ferramenta ou a combinação de diferentes tratamentos, sempre de acordo com as características de cada paciente.



