Recuperar parte do peso perdido depois de interromper um medicamento contra a obesidade não significa que o tratamento fracassou nem que faltou disciplina ao paciente. Uma revisão sistemática publicada na eClinicalMedicine analisou 48 estudos sobre o período após a suspensão de medicamentos agonistas do receptor de GLP-1.
Em uma avaliação com seis ensaios clínicos randomizados e 3.236 participantes, os pesquisadores observaram que, um ano depois da interrupção, houve recuperação média de 60% do peso perdido durante o uso da medicação. O reganho foi mais acelerado no início e desacelerou com o passar do tempo.
O que acontece após a suspensão
Medicamentos como semaglutida e tirzepatida interferem nos mecanismos hormonais relacionados à fome e à saciedade. A semaglutida imita a ação do GLP-1, enquanto a tirzepatida atua sobre GLP-1 e GIP. Durante o tratamento, essas substâncias ajudam a reduzir o apetite e aumentam a sensação de saciedade.
A retirada, porém, não elimina os mecanismos biológicos associados à obesidade. De acordo com o cirurgião bariátrico César De Fazzio, o organismo pode estabelecer uma faixa de peso que passa a reconhecer e defender. Quando ocorre uma perda significativa, o corpo reage para recuperar parte do que foi perdido.
“Quando você suspende o remédio, os hormônios da saciedade deixam de ser imitados, a grelina volta a subir, a leptina cai junto com a gordura perdida e o cérebro interpreta tudo isso como uma ameaça”, afirmou De Fazzio.
Nesse processo, a fome pode aumentar, a saciedade diminuir e o gasto energético cair. A chamada termogênese adaptativa também contribui para o reganho: depois do emagrecimento, o corpo pode gastar menos energia do que seria esperado para aquele novo peso. Esses mecanismos podem permanecer ativos por anos.
Reganho não é falha de caráter
Para o especialista, a obesidade deve ser compreendida como uma doença crônica, complexa e multifatorial. Por isso, a recuperação de peso não deve ser interpretada como prova de falta de força de vontade.
O peso, no entanto, pode ser visto, o que favorece julgamentos morais. De Fazzio compara a situação com doenças como hipertensão e diabetes: quando a pressão ou a glicemia aumentam após a interrupção de um remédio, a reação não costuma ser associar o resultado a preguiça ou falta de disciplina.
O reganho também pode ocorrer após a cirurgia bariátrica. Embora o procedimento provoque alterações metabólicas e hormonais mais profundas e duradouras, ele não elimina todos os fatores envolvidos na obesidade. Mudanças na rotina, sedentarismo, retorno de hábitos alimentares inadequados, consumo de álcool e interrupção do acompanhamento multidisciplinar podem interferir na evolução do quadro.
Segundo De Fazzio, após a cirurgia o reganho tende a ser menor e mais tardio do que depois da retirada dos medicamentos, mas ainda pode acontecer. “Por isso insisto: o reganho não é uma questão de caráter, é uma resposta biológica que precisa ser tratada.”
Acompanhamento continua necessário
Alimentação adequada e atividade física são partes importantes do tratamento, mas não anulam a biologia da obesidade. O acompanhamento com clínico, cirurgião, nutricionista, psicólogo e outros profissionais pode identificar alterações antes que elas se tornem um problema maior.
A avaliação de quem recuperou peso pode considerar aspectos da rotina, do sono, da saúde mental, da alimentação, do consumo de álcool e da presença de deficiências nutricionais. Também pode ser necessário rever medicamentos, ajustar a estratégia alimentar, intensificar o cuidado multiprofissional ou, no caso de pacientes bariátricos, avaliar uma cirurgia revisional.
O tratamento pode mudar conforme as circunstâncias da vida. Luto, depressão, mudança de emprego e outras doenças estão entre as situações capazes de interferir no controle da obesidade. Por isso, recuperar parte do peso não apaga os resultados alcançados anteriormente.
Nem todo paciente que começa a usar uma medicação antiobesidade necessariamente precisará mantê-la por toda a vida. Ainda faltam estudos de longuíssimo prazo sobre esses medicamentos. Pessoas que convivem com obesidade há mais tempo, têm IMCs mais elevados ou apresentam mais doenças associadas podem precisar de uso contínuo. Outras podem permanecer sem a medicação, desde que diferentes estratégias sustentem o controle da doença.
Medicamentos e cirurgia também podem fazer parte de um mesmo plano. Tratamento clínico e cirúrgico são considerados complementares, e a escolha depende das necessidades de cada paciente.
Diante do reganho, a prioridade deve ser investigar o que aconteceu e definir a conduta adequada, em vez de procurar um culpado. A obesidade continua sendo uma doença crônica mesmo quando há emagrecimento, e as ferramentas de cuidado podem ser ajustadas ao longo da vida.



