GOIÂNIA — A Rua 20 é identificada por pesquisas acadêmicas e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como a primeira via construída de Goiânia. A definição se refere ao primeiro conjunto edificado da capital planejada, e não à rua mais antiga do território que hoje integra a cidade.
Campinas começou a se formar em 1810, enquanto a pedra fundamental de Goiânia foi lançada em 1933. A diferença é de 123 anos. Antes da criação da nova capital, a antiga Campininha das Flores já tinha casas, igreja, comércio, ruas e estrutura administrativa. A casa considerada a mais antiga ainda existente em Goiânia também fica em Campinas: o imóvel foi construído em 1925 pelo alemão Karl Bartolomeo Steger.
O início da nova capital
A Rua 20 integra o núcleo pioneiro planejado na década de 1930, próximo da região onde estão a Praça Cívica, a Avenida Goiás, a Avenida Araguaia e a Avenida Tocantins. O local concentrou repartições, residências e estruturas ligadas à transferência da administração estadual.
Uma publicação do Iphan traz uma imagem da rua em 1935 e registra que as primeiras casas da nova cidade foram erguidas ali. A dissertação de mestrado “A paisagem urbana e os seus apagamentos: um olhar sobre a Rua 20”, apresentada à Universidade Federal de Goiás (UFG) pela arquiteta e urbanista Letícia Soares Martins Ribeiro, em 2025, analisa a via como o primeiro conjunto arquitetônico construído da capital.
A pesquisa apresentada à PUC Goiás por Tattiussa Costa Martins também aponta a Rua 20 como a primeira de Goiânia. O estudo explica que as chamadas casas-tipo serviram de modelo para outras construções da nova capital.
O Centro de Informação, Documentação e Arquivo da UFG (Cidarq) registra que dez prédios foram concluídos rapidamente durante a implantação da cidade. Um deles é associado à sede do Palácio Provisório do Governo de Goiás, enquanto o Palácio das Esmeraldas ainda estava em construção.
Imóveis que ainda existem
O imóvel do número 19 atualmente integra a Casa da Memória da UFG e da Justiça Federal. Há, porém, uma divergência acadêmica sobre sua identificação: uma pesquisa da UFG aponta que o edifício tombado como antiga sede provisória pode não ser o prédio originalmente usado pelo governo e sustenta que a sede efetiva não existe mais.
A Casa da Memória reúne exposições, fotografias, documentos e móveis relacionados à UFG e à Justiça Federal. Depois do período inicial da capital, o endereço foi ocupado pela Faculdade de Direito de Goiás, instituição ligada à formação da história da Universidade Federal de Goiás. Colemar Natal e Silva, então diretor da faculdade, tornou-se o primeiro reitor da UFG.
Entre 1969 e 1972, o prédio foi usado pelo Conservatório de Música da UFG. Em 1973, o imóvel passou para o Poder Judiciário, tornando-se a primeira sede própria da Seção Judiciária de Goiás. O tombamento como monumento histórico ocorreu em 1982.
Outro imóvel preservado é a residência onde viveu Colemar Natal e Silva, que hoje abriga a Academia Goiana de Letras.
Transformações na paisagem
A Rua 20 continua no Setor Central, mas perdeu parte da configuração registrada nas fotografias da década de 1930. Casas foram substituídas por edifícios, estacionamentos e imóveis destinados a outras atividades.
O artigo “A paisagem urbana da Rua 20 em Goiânia: entre memórias, histórias, transformações e disputas”, publicado em 2024 na Revista Jatobá, da UFG, identifica demolições, mudanças no uso dos imóveis e substituições de construções. Letícia Soares Martins Ribeiro e Christine Ramos Mahler analisam como essas alterações modificaram a paisagem original.
A dissertação de 2025 também trata dos apagamentos do conjunto pioneiro. Apesar das mudanças, o traçado da via, a arquitetura remanescente, a Casa da Memória e a Academia Goiana de Letras ainda mantêm referências aos primeiros anos da capital.
Assim, Campinas concentra a ocupação mais antiga do território, enquanto a Rua 20 representa o primeiro conjunto edificado dentro do projeto urbano de Goiânia planejada.



