A Avenida Goiás foi desenhada para conectar dois pontos estratégicos do plano original de Goiânia: a Praça Cívica, centro político-administrativo da nova capital, e a área reservada à ferrovia. Por isso, a antiga Estação Ferroviária aparece como encerramento visual do eixo no Centro.
A relação entre a avenida e a ferrovia foi definida antes da construção do prédio que existe atualmente. Quando Goiânia começou a ser planejada, nos anos 1930, os trilhos ainda não haviam chegado, mas o transporte ferroviário já era considerado importante para a organização urbana e para o desenvolvimento econômico.
Um eixo previsto no primeiro plano da capital
O arquiteto e urbanista Attílio Corrêa Lima elaborou as bases do traçado inicial de Goiânia. O projeto separava áreas destinadas à administração, ao comércio, à moradia e à indústria, organizadas por grandes avenidas.
A Praça Cívica ocupava uma posição de destaque, enquanto a Avenida Goiás avançava em direção ao norte. Na outra extremidade do percurso ficava a área reservada à futura ferrovia. A zona industrial também foi planejada nas proximidades, facilitando a ligação entre as atividades produtivas e o transporte de cargas.
A dissertação “Avenida Goiás: lugar, monumento e memória”, desenvolvida na Universidade Federal de Goiás, identifica a ligação entre a Praça Cívica e a Estação Ferroviária como uma das principais composições do plano original. A avenida, assim, não tinha apenas função de circulação: também organizava a paisagem e a leitura da nova capital.
O desenho aproveitava a topografia do terreno. A Praça Cívica foi posicionada em uma área elevada, enquanto o eixo da Avenida Goiás seguia para uma parte mais baixa. Essa disposição destacava visualmente o núcleo político e administrativo, deixando a ferrovia na outra ponta do sistema urbano.
Governo, comércio e transporte no mesmo percurso
Na Praça Cívica estavam o Palácio das Esmeraldas e outros edifícios ligados à administração estadual. No extremo oposto, a ferrovia representava a conexão de Goiânia com outras regiões por meio dos trilhos. Entre os dois pontos, a Avenida Goiás reunia poder político, comércio e transporte em uma mesma perspectiva.
O centro comercial se concentraria principalmente no encontro entre as avenidas Goiás e Anhanguera. Nesse trecho foi instalado o Monumento ao Bandeirante, e o cruzamento se tornou uma referência de circulação e atividades comerciais.
A avenida também foi concebida como uma avenida-jardim, com espaço para veículos, passeios públicos e manifestações cívicas. O canteiro central, a arborização e o tratamento paisagístico integravam o projeto. Com o crescimento da cidade, o local passou a abrigar comércio, lazer, convivência e encontros entre moradores.
A estação consolidou a perspectiva
A ferrovia demorou a chegar a Goiânia. A cidade começou a ser construída na década de 1930, enquanto a Prefeitura utiliza 1950 como uma das referências históricas para a inauguração da estação. Estudos registram diferenças de datas relacionadas à chegada dos trilhos, à inauguração formal e ao início da operação.
O ponto principal, porém, é que o planejamento urbano antecedeu a implantação física da ferrovia. A área ferroviária já estava prevista quando a Avenida Goiás foi projetada. Anos depois, a construção da estação consolidou a perspectiva imaginada no plano de Attílio Corrêa Lima.
Quando o transporte ferroviário entrou em funcionamento, quem desembarcava encontrava a Avenida Goiás à frente e podia seguir em direção ao centro. O caminho passava pela área comercial, pelo cruzamento com a Avenida Anhanguera e, mais adiante, pela Praça Cívica. A estação funcionava como uma porta de entrada para a capital planejada.
Com o tempo, a ferrovia perdeu espaço para o transporte rodoviário, e o prédio deixou de exercer sua função original. A antiga estação, entretanto, permaneceu diante da avenida e passou a ser reconhecida como patrimônio histórico, integrando o conjunto Art Déco associado aos primeiros anos de Goiânia.
Hoje, a Praça Cívica, a Avenida Goiás e a antiga Estação Ferroviária ainda formam uma sequência identificável no Centro. A cidade se expandiu e a área ferroviária deixou de ser a fronteira norte, mas o eixo criado no projeto original continua visível. A estação não foi posicionada ali por acaso: a avenida nasceu considerando a ferrovia como uma de suas referências finais.



