Roger Machado deixou a passagem pelo São Paulo como um período de aprendizado sobre rejeição, comunicação e relação com o torcedor. O técnico comandou o clube de março a maio, depois de enfrentar resistência antes mesmo do anúncio oficial, em um cenário marcado pela preferência da torcida pela permanência de Hernán Crespo.
Aos 51 anos, o treinador gaúcho afirmou que nunca havia vivido uma reação com aquela dimensão. Ele comparou o episódio à transferência para o Internacional, que também gerou rejeição por sua história no Grêmio, mas avaliou que o caso no São Paulo foi diferente pela intensidade.
Para Roger, o principal ensinamento foi desenvolver resiliência e compreender que, em momentos de derrota, o torcedor muitas vezes busca uma conexão emocional, e não apenas explicações sobre estratégia, tática ou desempenho. Ele também lamentou ter sido alvo de chacota por usar uma linguagem mais técnica, embora tenha reconhecido que precisa aperfeiçoar a forma de se comunicar.
“Essa relação que a gente hoje está vivendo adoece a todos nós, inclusive o torcedor”, afirmou Roger ao comentar o ambiente do futebol e o impacto das redes sociais.
Rejeição e contexto do São Paulo
O treinador disse que chegou ao São Paulo acreditando que poderia reverter a resistência inicial por meio do trabalho. A ideia era utilizar jogadores jovens em determinados momentos, incluindo partidas da Sul-Americana e do Campeonato Brasileiro, enquanto o clube buscava construir uma equipe capaz de disputar títulos.
Segundo Roger, a expectativa não era reproduzir o modelo dos anos 1990, quando um time podia ser montado para vencer uma temporada. O futebol atual, na visão dele, exige a construção gradual de uma equipe. O Campeonato Brasileiro foi tratado como uma competição de longa duração, enquanto a Copa do Brasil e a Sul-Americana apareciam como caminhos para conquistas na temporada.
Ele também avaliou que a política interna do clube se somou a outros fatores que ampliaram o desafio. A rejeição, porém, foi considerada desproporcional em relação ao que havia enfrentado anteriormente.
Política, racismo e futebol
Roger acredita que suas posições políticas explícitas e sua atuação na luta antirracista também contribuem para parte da resistência que encontra como treinador. Para ele, o futebol pode ser uma porta de inclusão e oportunidade, mas também reproduz mecanismos de exclusão.
O técnico afirmou que o racismo continua estruturado na sociedade e defendeu ações afirmativas para corrigir desigualdades. Ao abordar a própria trajetória, mencionou que apenas 3% dos jogadores recebem salários acima de dezenas de milhares.
Na avaliação de Roger, o futebol amplifica características da sociedade, tanto positivas quanto negativas. Ele também destacou a necessidade de cuidar da saúde mental de profissionais submetidos a maior exposição, responsabilidades e pressão.
Mercado para treinadores brasileiros
Roger vê com bons olhos a chegada de técnicos estrangeiros ao Brasil, desde que exista reciprocidade nas oportunidades para profissionais brasileiros em outros países. Para ele, essa movimentação trouxe novas metodologias e ajudou a quebrar hábitos do futebol local.
O treinador afirmou que o mercado nacional ficou mais confortável por muito tempo, mas a presença estrangeira aumentou a necessidade de buscar novos horizontes. Ele citou Mano Menezes, André Jardine e Filipe Luís como exemplos de profissionais brasileiros em experiências fora do país e disse torcer para que Filipe seja um dos líderes desse novo movimento.
Roger contou que está aberto a oportunidades no Brasil e no exterior. Algumas sondagens já ocorreram, e ele deseja voltar a trabalhar ainda neste ano, depois de ter comandado o São Paulo por dois meses. América Central, México e América do Sul estão entre os mercados monitorados.
Sonho de comandar a seleção
Ao falar sobre o futuro, Roger Machado colocou o comando da seleção brasileira como o principal objetivo de sua carreira. Ele explicou que esteve próximo da equipe nacional como jogador, acompanhando amistosos, partidas de Eliminatórias e uma Copa América na Colômbia, mas ainda não vestiu a camisa em campo.
Para o treinador, dirigir a seleção é o sonho profissional e representa o “gran finale” de sua trajetória.



