O consumo repetido de géis, gomas e bebidas esportivas durante corridas prolongadas pode aumentar a exposição dos dentes a carboidratos e ácidos. De acordo com especialistas, a combinação entre boca seca, produtos pegajosos e contato frequente pode favorecer cáries e erosão dental.
O alerta acompanha o crescimento da corrida de rua no Brasil. Já são 15 milhões de corredores e corredoras no país. Em 2025, foram realizadas 5.241 corridas oficiais, contra 2.827 no ano anterior, alta de 85%, conforme levantamento da Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor (ABRACEO). A previsão é de números ainda mais expressivos em 2026.
Como os carboidratos afetam a boca
Géis, gomas, bebidas esportivas, mel e produtos com glicose, maltodextrina e frutose são usados para fornecer energia durante o exercício. A médica nutróloga Marcella Garcez, professora e diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), explica que a suplementação pode ajudar a manter a oferta energética em exercícios prolongados, quando os estoques de glicogênio são utilizados.
A quantidade e a estratégia de consumo devem considerar a duração e a intensidade da atividade, a tolerância gastrointestinal e o objetivo do atleta. Por isso, deixar de consumir carboidratos por receio de cáries não é necessariamente a melhor opção em determinados treinos e provas.
O cirurgião-dentista Hugo Lewgoy, doutor pela USP e consultor científico da Curaprox, afirma que bactérias do biofilme dental metabolizam carboidratos fermentáveis e produzem ácidos. A repetição desse processo reduz o pH ao redor dos dentes e pode aumentar a desmineralização do esmalte.
Boca seca e produtos ácidos
Em uma corrida longa, o atleta pode ingerir pequenas doses de carboidrato por horas. Ao mesmo tempo, a desidratação e a intensidade do exercício podem reduzir o fluxo salivar. A saliva ajuda na limpeza da boca, na neutralização dos ácidos e na remineralização do esmalte.
A textura dos produtos também interfere. Géis, gomas e alimentos pegajosos podem permanecer aderidos aos dentes por mais tempo. Já as bebidas esportivas, quando consumidas em pequenos goles sucessivos, ampliam a frequência de contato com as superfícies dentárias.
Além do risco de cárie, há a erosão dental. Ela ocorre quando ácidos presentes nas próprias bebidas, géis ou suplementos provocam perda de estrutura mineral, sem a participação de bactérias.
Medidas durante e depois da prova
Uma das recomendações é beber água depois do gel, da goma ou de outra fonte concentrada de carboidrato. A medida ajuda a remover resíduos e diminui o tempo de contato dos produtos com os dentes. Também é indicado evitar manter bebidas esportivas na boca ou fazer bochechos com elas antes de engolir.
Após a prova, a escovação não deve ser feita imediatamente quando houve consumo frequente de produtos muito ácidos. A orientação é enxaguar a boca com água e esperar aproximadamente 30 a 60 minutos antes de escovar, porque o esmalte pode ficar temporariamente mais vulnerável em um ambiente acidificado.
O cuidado diário continua sendo fundamental. A cárie depende de fatores como controle do biofilme, frequência de consumo de carboidratos, saliva, exposição ao flúor e hábitos de higiene. Para Marcella Garcez, a suplementação precisa ter objetivo e indicação, com planejamento que preserve tanto o benefício para o exercício quanto outros aspectos da saúde.




