Pilotos de Fórmula 1 conseguem enfrentar trechos em que o carro chega a cerca de 350 km/h nas retas e 290 km/h nas curvas sem depender apenas da rapidez dos reflexos. A principal habilidade está em antecipar o que vem pela frente e preparar o corpo e a mente antes que a situação aconteça.
Otto Lappi, professor sênior da Universidade de Helsinque, explica que existe um limite fisiológico para a velocidade de processamento humano. Ainda assim, o piloto aprende a conhecer o ambiente e a identificar imediatamente o que precisa fazer. “A antecipação é como o cérebro ganha tempo”, afirmou Lappi.
Memória, espaço e mapas mentais
Dois estudos conduzidos por uma equipe italiana, em 2014 e 2013, compararam 11 pilotos profissionais, incluindo competidores da Fórmula 1, com 11 pilotos comuns. Os profissionais apresentaram boa capacidade de reação e habilidades visuoespaciais, mas a diferença mais relevante apareceu no córtex retrosplenial, região localizada na parte posterior do cérebro.
Essa área conecta o raciocínio espacial à memória. Ela ajuda a relacionar o local onde a pessoa está com lugares visitados anteriormente. Nos pilotos de elite, os pesquisadores encontraram células mais densamente agrupadas e maior conexão com outras regiões cerebrais. O resultado é a capacidade de construir mapas espaciais detalhados e acessá-los rapidamente. Entre os 11 profissionais analisados, uma densidade maior nessa área também estava associada a mais vitórias.
Lappi observou que esses pilotos costumam direcionar o olhar para curvas que ainda estão fora do campo de visão. A intenção não é enxergar o trecho naquele momento, mas visualizá-lo mentalmente. Durante a condução, eles também eliminam informações desnecessárias, olham apenas para o que importa e repetem os movimentos da cabeça nas curvas.
Menos esforço para executar mais
Os estudos indicaram ainda que pilotos de elite usam menos o cérebro durante as corridas do que pilotos comuns. Pietro Pietrini, professor de neurociência da IMT School for Advanced Studies Lucca e um dos autores do trabalho, chama isso de eficiência neural. Quanto maior a habilidade, menor tende a ser a dependência de esforço cerebral para realizar as tarefas.
Essa economia ajuda a manter a concentração sem esgotar a mente. Para Pietrini, eficiência neural e fadiga cerebral estão diretamente relacionadas.
O peso do treinamento e das forças G
O desempenho também é moldado por treinamento físico e mental, estresse, viagens, dietas rigorosas, privação de sono e pressão pública. Os pilotos são submetidos regularmente a forças de até 6G, além de vibrações constantes e da pressão do cérebro contra o crânio. Esses fatores podem provocar fadiga e uma espécie de névoa mental.
Durante uma corrida, eles podem perder até 3,6 kg de fluidos e convivem com o risco de o carro rodar, capotar e causar a morte. Jill Colangelo, especialista em sobretreinamento e saúde mental da Universidade de Berna, afirmou que poucos atletas lidam simultaneamente com tantas exigências. Ela também demonstrou preocupação com a pressão de patrocinadores, fãs e redes sociais.
Para Lappi, ainda não é possível saber se o piloto nasce com características cerebrais ideais ou desenvolve essa capacidade após anos de treinamento. O interesse principal, porém, está em entender como o cérebro humano se adapta à velocidade.



