RIO DE JANEIRO — O Ministério Público do Rio (MPRJ) recebeu uma ouvidoria anônima sobre a abordagem feita ao ator João Victor Gonçalves no entorno do Rock in Rio. A manifestação será analisada por um procurador de Justiça, enquanto a Polícia Civil abriu investigação mesmo sem o registro de queixa pelo artista.
O episódio ocorreu na noite de sexta-feira (4) e foi transmitido ao vivo pela plataforma Kick. João Victor, que interpreta Mau Mau na novela “Quem Ama Cuida”, caminhava em direção à Cidade do Rock quando o streamer GH Rell RJ e amigos se aproximaram. O grupo comentou sobre a aparência e a roupa do ator, além de acompanhá-lo por alguns segundos em um local deserto.
Relatos sobre a abordagem
Imagens da transmissão mostram os participantes gritando perto de João Victor e dizendo: “Que é isso. Cara horroroso. Cara meteu um tomate”. O ator não reage e parece acelerar o passo para deixar o local.
Depois que o trecho começou a circular nas redes sociais, João Victor disse que se sentiu intimidado. “Me senti acuado, senti ali uma violência”, afirmou em uma rede social. Ele também declarou ter sido vítima de homofobia e disse que o crime não poderia ser tratado como entretenimento.
O ator associou o episódio à trajetória de Mau Mau, personagem que passa por um processo de descoberta da própria sexualidade e enfrenta homofobia dentro de casa, principalmente na relação com o avô Otoniel, interpretado por Tony Ramos. Pedro Alves, que interpreta Fernando na novela, também publicou uma mensagem de apoio ao colega.
Investigação e versões
A apuração ficará sob responsabilidade da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi). A Polícia Civil informou que não encontrou registro de ocorrência com essas características na delegacia da área, mas decidiu investigar depois de tomar conhecimento do caso. A corporação orientou que situações desse tipo sejam registradas individualmente para permitir a identificação e a responsabilização dos envolvidos.
GH Rell RJ negou a acusação de homofobia e afirmou que a transmissão fazia parte de um tipo de conteúdo que costuma produzir nas ruas. O streamer também disse que o trecho divulgado foi retirado do contexto e acusou João Victor de racismo após o ator relatar medo de ser roubado durante a abordagem.
Na transmissão original, não fica claro se GH e os amigos sabiam que João Victor era ator no momento do contato. A defesa do artista afirmou que ele foi hostilizado por causa da roupa e que a abordagem ocorreu em um contexto de superioridade numérica, com quatro indivíduos contra um. Os advogados sustentaram ainda que o receio de ser assaltado foi uma reação de autoproteção e não teve relação com racismo.
Posicionamento do festival
O Rock in Rio informou que repudia violência, assédio, discriminação e preconceito. A organização afirmou que o episódio ocorreu fora do perímetro de segurança do festival, que conta com equipe privada dentro da Cidade do Rock, enquanto as áreas públicas ficam sob responsabilidade dos órgãos competentes.
O festival também disse manter ações de conscientização, prevenção e acolhimento, incluindo campanhas, conteúdos educativos, treinamento de equipes e canais para casos de racismo, LGBTfobia, xenofobia, intolerância religiosa, capacitismo, etarismo, gordofobia e outras formas de violência ou preconceito.



