Posts pagos publicados por perfis estrangeiros associaram Flávio Bolsonaro às cotações da Polymarket, plataforma americana de mercados de previsão. As divulgações foram feitas pelo Visegrád24 em 30 de abril e 20 de setembro, enquanto a UHN Plus também publicou conteúdo sobre o senador. As conexões envolvem empresas e nomes ligados à direita internacional, mas os documentos disponíveis não comprovam uma operação única coordenada para beneficiar a candidatura.
Em 20 de setembro, o Visegrád24 escreveu para mais de 1 milhão de seguidores no X que as chances de Flávio vencer a eleição estavam subindo. A publicação exibia o senador ao lado de Javier Milei e recebeu o selo de parceria paga, posteriormente apagado. Em 30 de abril, o mesmo perfil afirmou que Flávio havia ultrapassado Lula nas cotações, com 43% contra 38%.
O Visegrád24 também entrevistou Flávio em fevereiro, abordando temas como o Supremo, política externa, Estados Unidos e crime organizado. O perfil é mantido pela Intermarium Foundation, entidade americana sem fins lucrativos. Em 2024, a fundação arrecadou US$ 852.312, e a DonorsTrust registrou um repasse de US$ 175 mil destinado ao projeto. Esse registro não demonstra que o dinheiro tenha financiado publicações sobre Flávio.
Polymarket e as conexões empresariais
A Polymarket não realiza pesquisa eleitoral. Os percentuais exibidos correspondem ao preço dos contratos negociados pelos usuários. O acesso à plataforma foi bloqueado no Brasil em abril, porque a empresa não tinha autorização para operar no país. Desde junho de 2025, ela é parceira oficial de mercados de previsão do X.
Em agosto de 2025, o fundo 1789 Capital investiu na empresa. Donald Trump Jr. é sócio do fundo e também integra o conselho consultivo da Polymarket. A plataforma informou à NPR que retirava o patrocínio de criadores que divulgavam informações falsas sobre eleições. Documentos também registram que Matthew Modabber enviou ao menos US$ 350 mil a criadores entre 2025 e fevereiro de 2026.
Javier Negre aparece em outra ponta da cadeia. Empresário espanhol, ele é vice-presidente da UHN Plus Media Network, registrada na Flórida em novembro de 2025, e dono do La Derecha Diario. Desde 30 de março, a UHN publicou ao menos nove posts relacionados às cotações de Flávio, chegando a 60,5% em 21 de setembro. Um conteúdo de 14 de abril foi identificado como parceria paga.
Negre também participou da criação da edição em espanhol do Visegrád24 com a EDATV e o La Derecha Diario. A UHN afirmou que essas estruturas formavam uma aliança de mídia com Informa Radio e Visegrád24 Español. Em março, durante a CPAC no Texas, Negre entrevistou Flávio.
Fernando Cerimedo e Brad Parscale
A rede também se conecta ao argentino Fernando Cerimedo, que foi sócio de Negre no La Derecha Diario. Em fevereiro, Eduardo Bolsonaro apresentou Cerimedo em uma cerimônia em Mar-a-Lago, onde ele recebeu o prêmio de consultor político do ano. Na ocasião, Eduardo disse que venceria as eleições de outubro com Flávio.
Cerimedo foi associado à disseminação de alegações sem provas sobre fraude na eleição brasileira de 2022. Em 18 de agosto, foi detido na Bolívia e teve a prisão preventiva decretada. O Ministério Público boliviano o acusa de ser mandante de uma tentativa de feminicídio contra Nadia Beller. A defesa nega as acusações.
O argentino anunciou que representaria na América Latina as tecnologias da Campaign Nucleus e da EyesOver, empresas ligadas a Brad Parscale, ex-chefe da campanha de Donald Trump. Registros americanos apontam endereços coincidentes para a Campaign Nucleus, a EyesOver e a Clock Tower X LLC.
Cerimedo nega vínculo com a campanha de Flávio e afirma que sua relação com UHN Plus, Visegrád24 e Polymarket é responsabilidade exclusiva de Javier Negre. Também não foi localizado contrato entre a rede e a candidatura.
O que ainda não foi esclarecido
Os documentos confirmam parcerias anunciadas, publicações pagas, entrevistas e vínculos empresariais. Ainda não está definido quem financiou especificamente os posts do Visegrád24, quem escolheu Flávio como tema, quem intermediou a entrevista de fevereiro ou se houve relação com fornecedores da campanha brasileira.
A Lei das Eleições permite propaganda paga na internet apenas nas hipóteses previstas e contratadas por atores autorizados. As regras do TSE vigentes em 2026 proíbem conceder vantagem econômica para publicações político-eleitorais em perfis próprios. A campanha de Flávio afirmou anteriormente que não tinha conhecimento dos anúncios e negou relação formal com Cerimedo. O X informou ao TSE que manteria proibidos no Brasil os anúncios políticos e de campanha.



