Josefina, professora de escola pública há quase trinta anos, passou a enfrentar dificuldades não com a rotina escolar, mas com a forma de escrever os relatórios de seus alunos. Mesmo com experiência e vasto vocabulário, ela precisa adaptar descrições consideradas inadequadas para as demandas atuais.
No caso de Bento, a observação sobre apelidos relacionados ao mau cheiro, falta de banho, ausência de escovação dos dentes e chulé foi substituída por uma formulação sobre equipe multidisciplinar e desenvolvimento de hábitos de higiene. A colaboração dos pais também deixou de aparecer de forma direta.
Termos que foram trocados
Ao registrar o comportamento de Valentina, Josefina escreveu que a aluna cantava e dançava funk durante a aula, dizia ser compositora e não conseguia produzir uma redação de três parágrafos. A versão reformulada descreveu a estudante como alguém em fase primária de aprendizado, mas motivada a frequentar as aulas.
A professora também recebeu orientação para trocar expressões como falta de educação por dificuldade de autorregulação. Agressividade ou violência deveria aparecer como uso de meios físicos para se expressar. Já a palavra preguiça daria lugar à descrição aluno com ritmo próprio.
A situação é apresentada como uma crítica à maneira de lidar com problemas do ensino: em vez de apontar diretamente as dificuldades dos estudantes, os relatórios passam a usar termos mais amenos e técnicos.



