A multiplicação de ataques contra símbolos católicos e religiões de matriz africana e afro-brasileira revela uma disputa que vai além das diferenças entre crenças. A intolerância é mobilizada por grupos fundamentalistas que transformam a religião em ferramenta de poder e os adversários em inimigos.
Nossa Senhora Aparecida ocupa um lugar central nessa história. A devoção surgiu no século 18, a imagem foi encontrada por pescadores em 1717 e Pio 11 a proclamou Padroeira do Brasil em 1930. Em 1980, uma lei sancionada por João Figueiredo estabeleceu 12 de outubro como feriado nacional. O reconhecimento oficial acompanhou uma tradição popular já existente.
Nesse cenário, ganha importância a declaração de Flávio Bolsonaro de que, caso seja eleito, decretará que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. A Presidência, porém, deve governar pessoas de todas as crenças e também quem não segue nenhuma. O Estado laico não permite que uma religião se imponha às demais.
A Teologia do Domínio ajuda a interpretar correntes que veem a ocupação das instituições como parte de uma disputa religiosa. Algumas delas se aproximam da extrema direita, da qual o bolsonarismo é uma expressão relevante no Brasil. Isso não significa igualar essas correntes a todos os conservadores ou eleitores de direita.
Também é insuficiente tratar os excessos como simples resultado da polarização. O Brasil passou pela contestação da eleição de 2022, por acampamentos que pediam intervenção militar e pelo 8 de Janeiro. Em outro episódio, uma bomba foi colocada em um caminhão-tanque com 63 mil litros de querosene de aviação perto do aeroporto de Brasília. Em 2024, Francisco Wanderley Luiz arremessou um explosivo contra o STF e morreu depois de detonar outro.
Durante a pandemia, um apoiador de Bolsonaro derrubou cruzes instaladas em Copacabana para homenagear vítimas da Covid-19. Um pai que havia perdido o filho recolocou os símbolos. O luto também foi convertido em confronto político.
Fé, poder e democracia
Desigualdade, exploração e insegurança podem alimentar ressentimentos, mas não definem sozinhas seus alvos. Em uma sociedade marcada pela escravidão, pelo racismo e por hierarquias de classe, o mal-estar pode ser direcionado contra pobres, negros e minorias vulnerabilizadas. Redes sociais e algoritmos ampliam a circulação de medos, preconceitos e ressentimentos.
Mentiras, contradições e recuos repetidos exigem responsabilidade de quem pretende ocupar a Presidência. Acusações contra adversários podem ser investigadas, mas não substituem respostas sobre a questão original. O escrutínio precisa alcançar todos, sem presumir que frequência, gravidade e finalidade sejam iguais.
O mesmo princípio vale para a fórmula “Deus, Pátria, Família e Liberdade”. Deus não pode ser usado para legitimar intolerância. Pátria não combina com uma enorme bandeira dos Estados Unidos erguida no 7 de Setembro. Família não deve servir para impor um único modelo moral. Liberdade precisa valer também para quem pensa, acredita, ama ou vive de maneira diferente.
A democracia depende das urnas, do Estado Democrático de Direito, da soberania, da inclusão e dos direitos. Instituições, imprensa, lideranças, intelectuais, formadores de opinião e cidadãos devem confrontar mentiras e não tratar autoritarismo, intolerância ou violência como fatos normais.
No centro dessa fúria está uma mulher pobre, preta e popular. A pequena imagem de Aparecida atravessou três séculos e diferentes regimes até se tornar um dos símbolos da devoção brasileira. Defender sua imagem, os terreiros e o direito de cada pessoa acreditar — ou não — é defender uma sociedade na qual ninguém seja obrigado a seguir uma fé ou transformado em inimigo por sua origem, cor, condição social, religião ou modo de vida.
Carlos Fidelis Ponte, presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), membro do Conselho Nacional de Saúde e pesquisador da Fiocruz, sustenta que essa disputa envolve os próprios fundamentos da convivência. Quando uma sociedade decide quem pode pertencer plenamente a ela e quem deve se submeter, o risco não recai apenas sobre imagens religiosas: alcança a democracia.




