A série Monstro: A História de Lizzie Borden usa a história de Lizzie Borden para romper com as convenções mais rígidas do true crime. Produção antológica de Ryan Murphy, responsável por Nip/Tuck (2003-2010) e American Horror Story, a obra troca a investigação detalhada pela liberdade de imaginar outros passados possíveis.
A proposta incomodou fãs fervorosos do gênero, justamente porque a trama não se compromete a seguir à risca os acontecimentos reais. Em vez de tratar a narrativa como uma reconstrução dos fatos, a série assume o exagero, a fantasia e a fabulação como parte central de sua identidade.
Ella Beatty interpreta Lizzie Borden, enquanto Vicky Krieps vive Bridget. Em determinados momentos, a produção se aproxima mais de American Horror Story do que das temporadas anteriores de Monstro. A escolha reforça a intenção de Ryan Murphy de se afastar do modelo dominante de produções true crime lançadas nos últimos anos.
Referências e metáforas
Um dos atrativos da série está nas referências espalhadas pelos episódios. Entre elas aparecem Midsommar - O Mal Não Espera a Noite (2019) e o cinema soviético, representado por A Cor da Romã (1969), de Sergei Parajanov (1924-1990).
A cena em que Bridget reavalia sua ética diante dos assassinatos principais funciona como uma das metáforas mais marcantes. Com a ajuda de uma romã, ela pinta os cabelos de vermelho, numa associação com a mitologia grega: Perséfone aceita viver no Inferno depois de ser raptada por Hades e comer três sementes da fruta.
A produção também apresenta problemas e, em alguns momentos, explica demais suas ideias. Um exemplo é o monólogo de Aileen, personagem de Sarah Paulson, sobre a opressão das mulheres. Ainda assim, a série encontra sua força ao abraçar o tom alucinado e exagerado.
Sem lições de moral e sem depender da tensão de uma história baseada em fatos, Monstro: A História de Lizzie Borden celebra a ficção e o direito de inventar novas possibilidades para uma história conhecida.



