Gustavo Mendes voltou a interpretar Dilma Rousseff em um ano de eleições e recolocou o humor político no centro de sua carreira. A personagem, que impulsionou sua trajetória em meados dos anos 2010, reapareceu depois de um período afastada e, para a surpresa do comediante, voltou a mobilizar o público.
A retomada também marcou uma nova relação de Mendes com a própria criação. Ele afirma que, no passado, não estava preparado para a exposição, a polarização política e os ataques que vieram com o sucesso. Durante o impeachment da presidente, perdeu trabalhos publicitários e decidiu deixar Dilma de lado para se dedicar a outros personagens e projetos na televisão.
“Eu fiz as pazes com a personagem, fiz as pazes com esse meu passado que é tão bonito”, declarou. Segundo o humorista, o retorno aconteceu de forma despretensiosa e acabou repetindo o fenômeno que havia marcado sua carreira.
Um novo jeito de construir a personagem
Mendes avalia que o humor mudou e que a Dilma de 2026 precisou acompanhar essa transformação. Se os palavrões tinham papel importante no início, agora ele aposta em textos mais trabalhados. Para o comediante, é a construção do texto que diferencia a personagem de uma imitação pontual.
Ele também compara o momento atual à necessidade que alguns artistas tiveram durante a ditadura de recorrer a jogos de palavras para abordar determinados assuntos. A comparação, porém, não é apresentada como uma acusação de censura. Mendes afirma que não há ditadura nem censura, mas diz que os humoristas precisam compreender o cenário e encontrar novas formas de criação.
Na avaliação dele, é possível fazer piada sobre qualquer assunto, embora o momento seja determinante. Ao falar de racismo e violência contra pessoas trans, o comediante afirma que certas feridas continuam abertas e critica o uso do termo “mimimi” para desqualificar grupos que reivindicam direitos.
Retorno aos palcos
O humorista também percebeu o crescimento do público entre 16 e 26 anos, faixa que nem sempre acompanhou sua trajetória ou conheceu a personagem quando ela surgiu. A estratégia é alcançar essas novas gerações sem abandonar a importância que atribui ao texto.
Mendes voltou a viajar com o espetáculo solo Mais Atrevido, que reúne música, imitações, textos e a personagem Dilma. Ele também está em cartaz com as comédias Amor que Não se Mexe e O Marido da Minha Mulher.
Depois de uma fase afastado dos palcos, o comediante diz que não pretende repetir o ritmo frenético do auge da carreira. A intenção, agora, é trabalhar com mais calma e escolher projetos com maior qualidade. “Eu quero fazer coisas com mais qualidade e menos coisas”, afirmou.
A volta da personagem também representa, para Mendes, uma revisão de decisões tomadas no passado. Ele reconhece que abandoná-la de forma repentina foi um erro e que demorou a compreender a relação construída entre a personagem, o público e o artista.



