São Paulo foi o principal destino dos moradores que deixaram o Rio de Janeiro entre 2017 e 2022. Ao todo, 71 mil pessoas fizeram esse deslocamento, período em que o estado fluminense registrou perda de 165.360 moradores, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O resultado foi o maior saldo migratório negativo absoluto do país, sem considerar estrangeiros e pessoas sem especificação ou declaração de residência. Entre 2005 e 2010, o Rio havia registrado saldo positivo de 23.104 pessoas.
Trabalho e estudo influenciam mudanças
A busca por emprego e formação aparece nas histórias de moradores que trocaram seus estados de origem. Igor Pereira, de 25 anos, nasceu em Petrópolis, concluiu Economia na UFRJ e se mudou para São Paulo no fim do ano passado. Ele trabalhava em uma empresa do setor de seguros e decidiu esperar o fim da faculdade para acompanhar a mudança da liderança da companhia.
O pai de Igor, que dividia a rotina entre Rio e São Paulo por causa do trabalho, também se instalou na capital paulista com a esposa em 2023. Um dos irmãos do economista fez o mesmo há dois anos.
Cássio Luan Rodrigues, de 27 anos, saiu do Recreio e vive em São Paulo desde novembro do ano passado. Ele não concluiu o curso de Empreendedorismo e Gestão na Universidade Estácio de Sá e passou a trabalhar com marketing no estado vizinho. “Sinto falta da família, mas é preciso algum sacrifício”, afirmou.
No sentido contrário, a paulistana Amanda Gonçalves, de 28 anos, foi para o Rio depois de conseguir, pelo Enem, uma vaga em Direito na UFRJ. Ela se mudou em abril de 2022, após o retorno das aulas presenciais, formou-se no ano passado, começou a trabalhar em um escritório e faz pós-graduação em Direito Tributário na Uerj.
Amanda pretendia voltar a São Paulo depois da faculdade, mas decidiu permanecer no Rio. Há pouco mais de duas semanas, passou a dividir um apartamento no Bairro de Fátima com a mãe, Almerinda, aposentada e viúva.
Bárbara também escolheu continuar no estado. Ela afirmou que pretende permanecer no Rio e relatou dificuldades de adaptação relacionadas à criminalidade. Há cerca de dois anos, a mãe Ângela, o irmão, a cunhada e a filha do casal se mudaram para o estado.
Gabriel Xavier, de 20 anos, nasceu em Manaus e foi criado em Parintins, no Amazonas. Desde 2024, cursa Direito na UFRJ. A adaptação ao clima foi apontada por ele como a principal dificuldade. Gabriel mora em Del Castilho e comparou a violência do Rio com a de Manaus, citando os assaltos na cidade amazonense e os confrontos armados no estado fluminense.
Redução entre estrangeiros
O número de estrangeiros residentes no Rio também caiu. Entre 2011 e 2022, o contingente passou de 96.821 para 80.292 pessoas, uma redução de 16.529. No Brasil, o total subiu de 592 mil para mais de 1 milhão no mesmo intervalo.
Os portugueses representam mais de 30 mil estrangeiros no estado. Na sequência aparecem argentinos, com 5.522 pessoas, e italianos, com 3.465.
Para Marcio Misuo, demógrafo do IBGE, as novas chegadas de imigrantes, especialmente da Venezuela e de outros países da América Latina, não tiveram o Rio entre os principais destinos. Ele também relacionou a redução à idade da população de imigrantes europeus que vive no estado e ao efeito da mortalidade. Misuo acrescentou que segurança e custo de vida podem influenciar o cenário migratório.
Transformações na economia
Vitor de Pieri, professor do Departamento de Geografia Humana da Uerj, associou o saldo negativo a mudanças na geografia econômica brasileira. Na avaliação dele, a crise fiscal estadual, a diminuição dos investimentos, dificuldades em momentos da cadeia de petróleo e gás, a retração da construção civil e a crise econômica iniciada em meados da década passada afetaram o mercado de trabalho fluminense.
Pieri também citou impactos da Operação Lava Jato sobre empresas e cadeias produtivas dos setores de petróleo, engenharia e construção. Ao mesmo tempo, outras regiões ampliaram sua capacidade de atração. Em São Paulo, segundo o professor, a proximidade geográfica e um mercado de trabalho maior e mais diversificado contribuíram para a escolha de muitos fluminenses.
Para ele, a existência do saldo negativo já era esperada, mas a intensidade chamou atenção. “O que chama atenção, portanto, não é propriamente a existência da tendência, mas a sua magnitude”, afirmou. Pieri defendeu a reconstrução da capacidade de atrair e reter moradores, especialmente jovens e trabalhadores qualificados, por meio da geração de emprego, renda e perspectivas de futuro.



