RIO DE JANEIRO — A Defesa Civil já havia interditado o casarão que desabou parcialmente no Cosme Velho, mas o corredor usado pelos moradores para chegar à vila continuava sem uma rota alternativa segura. Foi nesse trecho que uma mulher de 43 anos e a filha dela, de 2, foram atingidas pelos escombros no sábado.
As duas foram levadas pelos bombeiros ao Hospital Miguel Couto e depois transferidas para um hospital particular. No primeiro atendimento, o quadro foi classificado como de gravidade moderada. Até a noite de ontem, elas permaneciam internadas, sem detalhes divulgados sobre o estado de saúde.
Imóvel já havia sido vistoriado
A Prefeitura do Rio informou que o endereço passou por três vistorias da Defesa Civil antes do desabamento. Em 2023, o proprietário recebeu orientação para realizar obras de recuperação. Em duas inspeções feitas em 2025, os agentes constataram que as intervenções não tinham sido executadas, e o imóvel foi interditado.
A Secretaria municipal de Desenvolvimento Urbano também intimou o dono a recuperar o casarão, incluindo a fachada. O município não informou quais providências adotou depois de receber um dossiê elaborado pela associação Viva Cosme Velho nem após verificar que as obras determinadas não haviam sido feitas.
O documento, com 51 páginas, foi entregue em março à Subprefeitura da Zona Sul. O levantamento citava cinco imóveis em situação preocupante e reunia reivindicações dos moradores, entre elas medidas para construções abandonadas.
No número 370 da Rua Cosme Velho, havia registros de infiltrações, revestimentos se soltando, esquadrias danificadas, problemas no telhado e vegetação avançando sobre a estrutura. A associação também alertava que a faixa de interdição instalada no local não garantia uma passagem segura para os moradores.
A prefeitura não esclareceu por que o corredor continuou sendo utilizado, nem se a Defesa Civil informou à associação que não poderia agir por se tratar de uma propriedade particular. Também não respondeu sobre os outros endereços incluídos no levantamento.
Alertas e queda
Segundo a Viva Cosme Velho, moradores fizeram um chamado pelo 1746 no fim de 2025. A Defesa Civil esteve no local e colocou a faixa de interdição. Luciana Falcão, integrante da associação e moradora da região, afirmou que novas cobranças foram feitas antes do acidente.
Moradores dizem que a deterioração aumentou depois do fechamento da padaria, por volta de 2020. O terreno chegou a ser ocupado e, após a retirada dos ocupantes, ficou sem manutenção regular.
Michael Rock, morador da região há cerca de 20 anos, relatou que já havia ocorrido outro acidente no imóvel. Segundo ele, uma pessoa teve o nariz quebrado depois de ser atingida por parte da construção. “Era uma tragédia anunciada”, disse.
A queda ocorreu por volta das 9h de sábado e foi registrada por uma câmera de segurança. O segundo pavimento desabou, provocando um estrondo ouvido pelos moradores e gritos das vítimas.
Isolda Rabelo, que vive há 45 anos na vila e conhece mãe e filha, encontrou as duas feridas quando saía para ir à missa. “Não consegui dormir com aquela imagem na cabeça”, afirmou.
Depois do acidente, a Defesa Civil também proibiu o acesso ao segundo pavimento do imóvel vizinho. A Secretaria municipal de Conservação vai retirar as partes superiores das construções, enquanto a Comlurb trabalha na remoção dos escombros.



