A influenciadora Virginia Fonseca compartilhou nas redes sociais a primeira sessão de um protocolo de laser íntimo e afirmou que o procedimento ajudaria nos escapes de urina. Mãe de três filhos, ela relatou perdas ao rir, um sintoma associado à incontinência urinária de esforço.
O problema pode ocorrer ao tossir, espirrar, pular ou fazer exercício. Embora seja frequente depois das gestações, a perda urinária não deve ser tratada como algo inevitável. A questão é que, com base nas pesquisas disponíveis, o laser íntimo ainda não é considerado um tratamento adequado para esse tipo de incontinência.
O que o procedimento pretende fazer
O laser é aplicado com uma ponteira inserida no canal vaginal. A energia busca estimular a produção de colágeno na parede vaginal e, em tese, melhorar a sustentação da uretra, por onde a urina é eliminada.
A incontinência de esforço, porém, costuma estar relacionada à força e à coordenação dos músculos do assoalho pélvico. Esse conjunto sustenta a bexiga, o útero e o intestino, além de ajudar a fechar a uretra durante situações de esforço. Como o laser atua na mucosa vaginal, ele não promove o treinamento desses músculos.
Pesquisas não confirmam benefício consistente
Os primeiros estudos sobre a tecnologia eram, em geral, pequenos, sem grupo de comparação e, em muitos casos, financiados pelos fabricantes dos equipamentos. Por isso, não permitiam separar o efeito do laser de uma possível resposta ao placebo ou da melhora natural ao longo do tempo.
Ensaios que compararam o laser com procedimentos simulados também não chegaram a uma conclusão favorável de forma consistente. Na Austrália, em 2022, uma pesquisa com cerca de 100 mulheres não identificou diferença real entre o laser de CO2 e o procedimento simulado após três meses. Em Hong Kong, em 2025, um estudo com 75 mulheres testou o laser Erbium:YAG e também não encontrou diferença significativa diante do grupo de comparação.
Um estudo da Unifesp, no Brasil, realizado em 2022 e 2025, acompanhou 114 mulheres e apontou vantagens do laser em relação ao procedimento simulado. O acompanhamento ao longo de quatro anos, contudo, mostrou redução do efeito.
A revisão mais recente da Colaboração Cochrane, publicada em 2025, reuniu nove ensaios clínicos com 689 mulheres. A análise concluiu que não é possível afirmar que o laser aumente, no curto prazo, a quantidade de mulheres que deixam de ter perdas urinárias quando comparado ao procedimento simulado. Houve uma pequena melhora nos questionários, mas ela ficou abaixo do nível considerado clinicamente relevante. A certeza da evidência foi classificada como muito baixa.
O que recomendam as entidades médicas
A Associação Internacional de Uroginecologia afirma que os estudos sobre o laser ainda são principalmente observacionais. Para que a tecnologia seja recomendada, seriam necessários ensaios clínicos capazes de demonstrar eficácia, segurança e complicações de longo prazo.
A Sociedade Internacional de Continência e a Sociedade Internacional para o Estudo de Doenças Vulvovaginais não indicam o uso rotineiro do laser. Para as entidades, a aplicação deve ocorrer em pesquisas bem estruturadas ou com regras específicas de consentimento e acompanhamento.
No Reino Unido, o NICE recomenda que o laser transvaginal para incontinência de esforço seja utilizado somente em pesquisas. O EBCOG declarou, em 2024, que faltam evidências robustas para a adoção na prática cotidiana. A AUGS também registrou que ainda não se sabe se o laser supera os exercícios do assoalho pélvico ou a cirurgia.
No Brasil, a Febrasgo aponta a mudança de hábitos associada à fisioterapia como primeira linha. O treinamento dos músculos do assoalho pélvico é apresentado como a técnica com maior nível de evidência.
Opções após a gestação
Gravidez e parto estão entre os fatores associados à incontinência de esforço, por sobrecarregarem músculos e tecidos de sustentação da pelve. Como muitos estudos sobre laser envolveram mulheres por volta dos 50 anos, na transição para a menopausa, ainda há pouca informação sobre os efeitos da tecnologia em mulheres jovens no pós-parto.
Para essa fase, a conduta com maior respaldo é a avaliação feita por fisioterapeuta pélvico e, quando necessário, o treinamento supervisionado da musculatura. Uma revisão Cochrane com 46 estudos e mais de 10 mil mulheres indicou redução das perdas e melhora da qualidade de vida com esse treinamento.
Além da fisioterapia, podem ser avaliados ajustes de hábitos, como controle do peso, tratamento da tosse crônica e da prisão de ventre, além de cuidados com o consumo de líquidos e a rotina de idas ao banheiro. A cirurgia, como o sling, costuma ser considerada para casos moderados ou graves que não apresentam melhora com medidas conservadoras. A decisão varia conforme o tipo de incontinência, a intensidade dos sintomas e os objetivos da paciente.
Antes de considerar o laser, é importante esclarecer qual é o tipo de incontinência, se já houve avaliação do assoalho pélvico e tentativa de fisioterapia. Também devem ser discutidos riscos, cuidados após o procedimento e custo total. No cenário atual, o laser permanece em investigação, enquanto o treinamento funcional do assoalho pélvico tem resultados documentados.



